sexta-feira, 14 de outubro de 2011

VIDA DE SAMBISTA E SEUS DISSABORES

Como a maioria sabe tenho o samba como hobby faz algum tempo, embora já tenha tocado pra valer – isso faz quase 15 anos -, com direito a ensaios, correria, estúdio e noites de muito sono, mas tudo isso foi interrompido pelos estudos, namoro, trabalho, enfim, não tinha condição de conciliar tantos compromissos.

Ocorre que por ter passado – mesmo que de forma amadora pela música – e ter uma noção do quanto é difícil ser músico, venho fazer algumas considerações no tocante a esse ofício.

 A profissão de músico (precipuamente no que diz respeito ao samba e pagode) é banalizada por muitos, visto que boa parte das pessoas acredita ser apenas uma diversão, algo voltado ao simples entretenimento, regado a noitadas, baladas, com intervalos entre um drinque e outro, ou seja, algo totalmente descompromissado, o que não é verdade.

Outra parcela da sociedade, o que é muito pior, enxerga o músico como alguém que não tem profissão, indagando o músico com a seguinte máxima, quase sempre no intervalo do evento:

- Você é muito bom, parabéns, além da música, o que você faz?

Ao passo que o músico responde:

- Sou músico, toco nessa e na outra casa de quinta a domingo!!!

O sujeito, muitas vezes não investe em sua interpelação, mas fica curioso em saber o que faz esse músico de segunda a quarta-feira, sendo certo que esse tal músico pratica, estuda (sim, estuda), aperfeiçoa seus conhecimentos, desenvolve suas próprias técnicas, isto é, como em toda e qualquer profissão existe a necessidade de um estudo contínuo, sem o qual não haverá sucesso.

No entanto, existe um leque amplo de profissões, muitas com tabelas salariais preestabelecidas pelo mercado, onde cada um se encaixa, sem falar na famosa vocação, o famigerado “você nasceu pra isso”, estando o músico diretamente ligado à vocação.

Acredito – embora possa estar enganado - que, ao contrário de outras profissões, a música está necessariamente ligada à vocação (dom), uma questão até mesmo hereditária, sendo aperfeiçoada com estudos contínuos, haja vista que existem muitas pessoas que adoram música, adoram cantar, mas não conseguem desenvolver uma boa técnica, bons resultados, justamente por faltar-lhes a vocação (dom), por não terem nascido pra isso.

Obviamente isso acontece em outros ramos de atividade, mas com a música isso ocorre com mais freqüência.

Em princípio, devo deixar claro que ser músico é ser profissional (e quando digo músico, necessariamente, me refiro àquele que sustenta sua família com o dinheiro da música), é ser pai de família, é ter contas a pagar (bastante), é ter direito a descanso (às vezes), é ter reconhecimento (caminha-se pra isso) e, sobretudo, é ter dignidade (essencial).

Importante esclarecer que na década de 60 foi criada a Ordem dos Músicos do Brasil por meio da lei 3.857/1960 (em suma, para disciplinar e defender a classe dos músicos), mas nesse particular prefiro não me aprofundar, já que a maioria dos músicos se queixa de não haver uma contraprestação por parte da Organização e de ser a anuidade bem “salgada”.

Trocando em miúdos, ser músico é ser autônomo, é poder trabalhar com essa ou com aquela pessoa ou banda, é ser um profissional liberal, de modo que a própria Constituição Federal, art. 5º, incisos IX, XIII, assegura a atividade desses profissionais. Senão, vejamos:

“Art. 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza (...)

IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;

XIII - é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer;”

Original não grifado.

Com a expressão da Constituição Federal, resta claro que é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, ocorrendo, em alguns casos, de serem regulados por lei infraconstitucional, como, por exemplo, a lei que criou a OMB.

Na minha concepção, o músico exerce uma atividade intelectual (composição, arranjos, produção etc.) e artística (essência), ponto incontestável – embora muitos possam contestar -, exercendo a sua atividade com liberdade e autonomia, sendo, em resumo, uma prestação de serviços.

Sem mais delongas, venho levantar a bandeira da profissão de músico, dizer que admiro essa profissão, respeito e acima de tudo acredito, pois tenho o prazer e a satisfação de conhecer alguns músicos pessoalmente, outros com a liberdade de freqüentar a residência e vice-versa.

Claro que a parte boa de tudo isso são os churrascos promovidos e a cerveja gelada...brincadeiras à parte, sempre que posso prestigio os amigos sambistas, amigos que fiz em sambas de comunidade como o Genilson, também conhecido como Filé (samba da laje e Sedinha), Marquinhos Cachorrão (Márcio Art), Beiço (Sem Compromisso), Fabio Henrique (samba da Sedinha), David Bandolin (Seu Zé), Fabio Henrique 7 Cordas (Seu Zé), Du (Seu Zé), Diniz (Seu Zé), Priscila Amorim (Seu Zé), Almir Serra, também conhecido como Almirzinho.

          O Conjunto Candeeiro, composto por grandes sambistas que, neste ano de 2012, tive a honra de conhecê-los melhor, sendo eles Aldemir Lessa, Claudinho Alves, Nenê, Rodrigo Reis e Sandoval, que lançaram recentemente o álbum intitulado "Novo Sol", ressaltando que Aldemir Lessa se tornou meu parceiro de composição e lá se foram duas "direitos de um povo" e "bamba em sua essência".

Além desses sambistas, o Grupo Mais Que Amigos, que já foi produzido pela minha grande parceira Marcella Nicastro (que continua firme e forte nessa estrada da música com Iluaê Querido e outros artistas), se tornou um conjunto referência pra mim em muitos aspectos, sendo músicos que carregam valores extremamente relevantes, tais como simplicidade, humildade, cordialidade, excelência técnica e diversas outras qualidades que na somatória, sem sombra de dúvidas, garantem o sucesso.

           Lembrando que hoje em dia quem corre atrás, quem organiza tudo é o Gavião, ligeiro, malandro de primeira e que o sucesso "favela fashion week" virou tema do morro do alemão, na novela de Glória Perez "Salve Jorge", vitórias de muito trabalho e suor.

É por essas e por outras que eu respeito os sambistas e me rendo ao samba!!!

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